Morador responde indignado à demolição irregular do Hotel dos Descasados
Categoria: Grita Santa
04 de novembro de 2007
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Recebi por equivoco uma comunicação sua destinada a uma outra pessoa, daí tomo a liberdade de lhe mandar este e-mail.
” Lo que denuncio es la monstruosa hipertrofia de algunas posibilidades humanas (la razón, por ejemplo) en desmedro de otras, menos defininibles por estar situadas precisamente al margen de órbita racional…ese desequilibrio resultante de um humanismo que en definitiva pone el acento en el sapiens más que en homo.” Julio Cortázar (Cartas 1964)
Devo-lhe dizer que me causa muita tristeza ler a leveza com que o senhor trata a questão do patrimônio cultural aqui do bairro. Meu vizinho de frente, por exemplo, não viveu para ver a reforma de sua casa terminada depois de dois anos de negociação com o Patrimônio (IPHAN), pois o telhado estava caindo, as paredes estavam rotas, etc (Isso lhe soa familiar, talvez?). Pois bem, depois de dois anos de reforma minuciosa, eis que a casa está novamente linda, pronta para receber mais uma geração de sua família.
Agora tentam refazer o jardim; criam uma tradição e junto, um futuro. Em minha própria casa, uma das mais fotografadas da região, temos gastos com decupinização sistemática, repintamos as fachadas diuturnamente, cuidamos da preservação da arquitetura, dos jardins, do gradil – temos vários empregados, exclusivos para este fim. Outros vizinhos felizmente, tem agido da mesma forma.
Daí, leio que o senhor é muito preocupado com o patrimônio cultural do Bairro de Santa Teresa. Esta afirmação sua me causou enorme estranheza. Explico. Assisti da minha varanda à firma contratada pelo senhor quebrar telha a telha, todo o trabalho de escravos. O senhor deveria ter consultado um restaurador para esta obra. Ainda que o senhor não tencionasse reutilizar as telhas, deveria tê-las ofertado ao patrimônio histórico, pois eram telhas feitas nas coxas (dos escravos) e portanto, únicas, centenárias. O senhor sabia?
Após isso, esta mesma empresa vendeu todo o madeirame e os portões de ferro também centenários à firmas de demolição. O senhor sabia? Por último, o senhor utilizou de retro-escavadeira para demolir um prédio, que segundo o senhor, não tinha condições de ser reformado, pois estava caindo. Para mim, um escárnio, esta afirmação, desculpe a franqueza algo agressiva, especialmente quando penso no meu vizinho.
Enquanto meu vizinho morreu tentando preservar seu imóvel, o senhor pôs abaixo o segundo imóvel histórico mais importante de Santa Teresa – o primeiro é o Convento, que dá nome ao bairro – sempre com a promessa de que estaria o reconstruindo.
No meu entendimento do português, para reconstruir, eu teria que fazer de novo, igual ao que era. Caso contrário, estamos falando de uma nova construção. Que tal o senhor admitir isso, publicamente? Seria uma postura mais honesta se sua parte, admitir que cometeu um erro, e tentar repará-lo, ao invés de ficar tentando desautorizar àqueles que se contrapõem ao senhor.
Estas pessoas estão indignadas com razão. Também me indigno. O senhor tenta com isto destruir nosso modo de vida. Nós não vivemos de passado não, nós é que escolhemos viver deste modo. Afinal fomos nós, eu inclusive – que moramos em Santa Teresa, que tomamos a iniciativa de preservar este lugar. Não por motivos fúteis, mas porque sabemos que o patrimônio que ainda temos é o mais representativo de como esta cidade vivia e bem – que ainda está de pé. Lamentavelmente o hotel se foi. São as nossas casas e o nosso investimento, vida. A lei da APA existe para que este casario permaneça como representante arquitetural histórico da cidade do Rio de Janeiro, e foi exatamente por este motivo, que o senhor conseguiu adquirir o imóvel ainda de pé, ainda habitável, ainda funcionando.
O “Hotel dos Descasados” era um patrimônio cultural do bairro. Agora não é mais. Virou Exclusive. Só o que resta desta construção, são as paredes da Rua Almirante Alexandrino e os quatro arcos que a ação dos moradores lhe impediram de destruir. Eu poderia desdenhá-lo, senhor, mas faço diferente, convido-o a fazer algo positivo – realmente pó-si-ti-vo – pelo bairro. Não isso de colocar o comércio contra os moradores, ou colocar o “asfalto” contra as “comunidades” como o senhor sistematicamente vem fazendo. Não é com a promessa de alguns empregos subalternos ou alguma caridade que o senhor conquistará a simpatia do bairro, mas sim respeitando aqueles que forjaram o que o senhor encontrou, gostou e adquiriu. O senhor tem tamanho. Terá grandeza?
A força de Santa Teresa vem das pessoas que aqui moram, que forjaram a cultura pela qual o senhor se apaixonou de tal forma, que quis dela fazer parte. Como compreender o senhor, e outros como o senhor, que destroem o objeto de seu amor? Estranha perversão esta, onde apenas conta o prazer do poder. Sobrará deste embate apenas mais um bairro sem personalidade, igual a Parati – uma cidade que perdeu sua alma!
Lamentável isso tudo! Muito lamentável.
Talvez o senhor ainda não conheça o que se chama Patrimônio Imaterial: a forma de se viver num lugar. Fazem parte disso o conjunto de casario, tradições, lendas, fauna, flora, costumes, pessoas, convivência…
Para terminar, cogito, qual seria a resposta das autoridades de seu país de origem, a França, se eu comprasse um daqueles imóveis do 6º distrito de Paris, aqueles feitos em 1600, e o pusesse abaixo? O senhor percebe que foi exatamente isto que o senhor fez aqui em Santa Teresa, na nossa cultura? Uma construção de 1865 num país de quinhentos anos, equivale a destruir um prédio ou um castelo de 400 anos na França. Por preguiça de fazer bem feito, utiliza o cartesianismo – custo versus lucro. O Homem? Esqueça! Este é o símbolo que o senhor nos oferece. O senhor se dá conta?
Atenciosamente,
Daniel Willmer, morador que ama o bairro profundamente e que quer paz e honestidade de propósitos.










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