Pensando Santa Teresa
Categoria: Grita Santa
11 de maio de 2008
O bairro de Santa Tereza está sendo loteado para meia dúzia de investidores não nacionais que competentemente aqui chegaram para expandir seus negócios de interesse absolutamente privados.
Na contramão do Plano Diretor Participativo, atropelando o movimento “Cidade de todos”, estes senhores encontraram um ambiente político totalmente desobstruído para efetivarem seus projetos de investimento à revelia de tudo e quase todos, à revelia, no mínimo, do contexto sócio-cultural do bairro.
Santa Tereza que, arduamente, vem se defendendo há mais de quatro décadas, primeiro do abandono e, mais recentemente, da ganância dos especuladores de todas as ordens, é, hoje, Área de Proteção Ambiental e Cultural graças ao esforço político da Associação dos Moradores e Amigos de Santa Tereza - AMAST.
Pois foi exatamente este bairro o eleito para se tornar um pólo turístico e gastronômico. Chegou-se ao cúmulo da insanidade com a recente proposta de privatização do Bodinho.
No meu entender, o espaço urbano é o espaço público mais particular de todos os espaços exatamente por ser público, de todos nós.
É uma questão de civilidade, de bom senso; a base do conceito é simples e incontestável: em casa, o quarto do fulano é do fulano e lá ele se arruma como quer. Mas a sala, o jardim, a cozinha, é da família: lá se arruma para uma boa convivência. Em casa de alguém até polícia só entra com mandado judicial e na rua não dá para passear pelado… São regrinhas banais que fogem ao entendimento dos que supostamente deveriam estar cuidando exatamente destas coisinhas.
Santa Tereza é um bairro residencial, com topografia especial, sobre terreno com características geológicas que exigem cuidados (lembrar chuvas da década de 1960), com uma densidade demográfica já sedimentada, encravada na mata Atlântica, um mirante para a baía de Guanabara e muito mais detalhes da cidade, com uma população que aqui reside há três, quatro gerações, imigrantes Italianos Calabreses e Portugueses que montaram o comércio do bairro com seus açougues, leiterias, armazéns…
São 300 anos de Arquitetura, cheio de Histórias, tradicionalmente reduto da intelectualidade aristocrata do início do século XX, refúgio natural das intempéries da segunda guerra, dos descasados, dos bichos grilos… A gente daqui é boêmia e, portanto despojada e alegre. Em Santa Tereza temos hortas orgânicas caseiras, compostagem de mutirão, galinha e ovo caipira…
Por tudo isto, Santa Tereza desperta a curiosidade do turista.
DESPERTAR A CURIOSIDADE DO TURISTA significa que o turista quer conhecer o que escolheu conhecer da forma como teve a notícia.
E isto é um dado de mercado. Aliás, um importante dado mercadológico. E as estratégias de intervenção sobre as provocações de mercado no que tange às Políticas Públicas Urbanas devem ser lançadas sob as luzes da Legislação Urbana e das regras Constitucionais nas quais se sustentam os conceitos fundamentais de Cidadania.
Sergio Bernardes dizia, com muita propriedade, que, enquanto a terra for propriedade privada, não haverá espaço para o exercício da Arquitetura e muito menos do Urbanismo. O território deste país é propriedade privada de 02% dos 05% da população que detêm a renda do país.
Donde podemos concluir sem nenhum esforço que, enquanto assim o for, políticas urbanas de fato e reforma agrária jamais serão efetivadas até porque, na mesa desta elite dominante, almoçam e jantam também os governantes.
O Plano de Urbanismo da Barra da Tijuca, projeto do Velho Lúcio, agonizou e faleceu nas mãos do Coreano, de Múcio Athaìde e do terceiro dono das terras de lá, cujo nome não me ocorre agora.
Não é mais possível vincular viabilidade econômica dos espaços urbanos a interesses especulativos do Mercado Imobiliário e, muito menos, aos demais interesses econômicos de uns e outros.
As cidades não são aglomerados humanos reduzidos à categoria de meros contribuintes. Os adensamentos demográficos e as intervenções no modo de viver de uma comunidade não podem ser pautados na megalomania mercantil e tributária, mas sim induzidos por critérios mais abrangentes numa visão holística do que é dignidade humana.
Estimular a troca de uso de imóveis residenciais para comerciais com fins especulativos numa área residencial por excelência, por vocação e por determinação do código de zoneamento, especialmente numa APAC como Santa Tereza, é desconsiderar integralmente o ethos desta comunidade. E isto é insuportável.
Pois o bairro de Santa Tereza está sendo comprado por investidores que já se fazem concorrência e trocam bons negócios sob as barbas da Prefeitura.
Está se perdendo o controle.










Nenhum comentario ainda
Que tal você participar?
(Para falar com a AMAST use o "Fale Conosco")
Deixar um comentario