Privatização dos bondes
Categoria: Mensagens da Diretoria
03 de março de 2009
Débora Lerrer*
Honestamente, é duro ler matérias com entrevistas de “usuários” do bondinho que, na verdade, não costumam usá-lo, para justificar as intenções do governo Cabral de privatizar este serviço tão duramente mantido em Santa Teresa graças à luta de seus moradores.
Apesar de, hoje, só estarem funcionando três bondes, esse meio de transporte dá de 10 a zero nos ônibus ensandecidos que correm nas ladeiras do bairro. Uso o bondinho todos os dias. Apesar do desmonte do serviço promovido por governos irresponsáveis, apesar de, às vezes, ocorrerem problemas de carros estacionados nos trilhos, falta de energia e atrasos, geralmente, o bonde passa nas horas previstas.
Ou seja, dá para ir ao centro e voltar sem o estresse de ficar esperando um ônibus que a gente não sabe quando vai passar. Para usar bem o bonde, basta saber mais ou menos seus horários e relaxar, aproveitar o relacionamento dos motorneiros com os usuários e conhecer pessoas de outros lugares encantadas com esse tempo que ainda podemos desfrutar em Santa Teresa graças aos sacolejos de seus bondinhos.
Antes, com dois bondes, era relativamente fácil saber o horário, pois o Dois Irmãos saía sempre na hora cheia. Eu o escutava subindo, dava 15 minutos e ia para o ponto esperá-lo. Agora, como ele está de 20 em 20 minutos, posso me dar ao luxo de ir ao Largo do Guimarães porque tenho mais chance de, se perder o que veio para cá, pegar o seguinte, que vem do Largo das Neves.
O ideal, obviamente, é ter mais bondinhos. Aí, simplesmente não terá público para esses ônibus malucos, que vão ladeira abaixo como se estivessem participando de corridas, com motoristas estressados que, volta e meia, tratam mal os passageiros, fechando a porta antes de todos descerem. Já vi acidente sério com uma idosa que descia do ônibus devagar demais para os padrões da Transurb, com certeza, a pior concessionária de ônibus do Rio.
Obviamente, com mais bondinhos, os R$ 0,60 de tarifa do bonde que o secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, alega ser um valor irrisório, vão melhorar a receita do serviço. Aliás, acho mesmo que a passagem poderia subir, mas para R$ 1,00. Só não sei porque eles precisam privatizar para subir a passagem.
Quer dizer que uma empresa do Estado não tem autonomia para aumentar o preço da passagem? Precisa privatizar para o lucro ir para bolsos particulares? O serviço de bondes pode ter equilíbrio financeiro. Basta estruturá-lo melhor, pois o custo deste transporte é baixo por já ter um investimento fixo feito. E mais, lembrem-se, recentemente houve uma reforma nas vias permanentes com dinheiro do Banco Mundial que quem pagará somos nós, mas, se privatizar, quem vai usufruir é a concessionária.
Transporte público é serviço essencial, portanto, não deveria estar sujeito às regras do mercado e a imperiosa necessidade de lucratividade. É serviço público e tem como destino final servir aos cidadãos e não encher bolsos privados.
* Débora Lerrer é jornalista e moradora de Santa Teresa










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