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A Radiobras e os bondes


Categoria: ClippingMensagens da Diretoria  
25 de março de 2009

* Juçara Braga

Recentemente, dei uma entrevista à Agência Brasil, site de notícias governamental que integra o sistema Radiobrás, e, entendendo que a matéria publicada trazia algumas distorções em relação ao que falei, enviei mensagem protestando. O ouvidor da Agência, Paulo Machado, respondeu, ampliando a pauta para uma série de questões relacionadas ao propósito do governo estadual de privatizar nossos bondes. Agradeço a atenção do ouvidor Paulo Machado, analisei seus argumentos, mas, ainda assim, mantenho meu protesto. Enviei tréplica que, estou certa, chegará (se já não chegou) ao ouvidor e reproduzo, a seguir, o trecho no qual ele propõe uma pauta um outro olhar sobre a proposta de privatização do sistema de bondes. O texto completo pode ser lido no link ouvidoria, arquivo de 20/03/2009, na Agência Brasil (www.agenciabrasil.gov.br), um dos melhores sites de notícias que temos, atualmente.

* Vice-presidente da AMAST

Análise da pauta pelo ouvidor da Agência Brasil, Paulo Machado: A partir dos problemas de infra-estrutura de transportes de Santa Teresa, uma fonte deu informações para que se construísse um outro olhar sobre a questão. Poderia ter sido uma abordagem em que a notícia discutisse o crescimento econômico a qualquer preço, às expensas da depredação ocasionada por um turismo de massa, em contraposição ao desenvolvimento econômico sustentável, que respeite as características socioculturais e ambientais do bairro. Essa contradição entre crescimento e desenvolvimento é uma discussão que permeia nossa sociedade e nada melhor do que exemplos práticos como esse para deles se extrair o caráter universal das questões que contemplam. Principalmente porque o assunto da pauta era a privatização dos bondes conforme consta da matéria: Modelo de concessão dos bondes de Santa Teresa sai ainda no primeiro semestre, publicada dois minutos antes da outra.

Nela, o secretário estadual de Transportes do Rio de Janeiro, Julio Lopes, defende um modelo de concessão, como o aplicado para outros meios de transportes na cidade, com o objetivo de melhorar o serviço. Mas será que o modelo funcionaria em um sistema de transporte com tantas peculiaridades como o de Santa Teresa? Ou o bairro secular, que possui o único sistema de bondes em funcionamento na cidade, mereceria uma administração diferenciada que preserve suas características socioculturais e ambientais, mesmo que o estado tenha que continuar subsidiando o preço da passagem? Quais as implicações da privatização do sistema? Essa poderia ter sido a discussão por trás da pauta que partindo de um exemplo local daria uma dimensão nacional ao assunto. Hoje vivemos um momento singular em que o mesmo Estado que deveria ser mínimo e não se intrometer nos assuntos de mercado, segundo os paradigmas neoliberais, está sendo convocado para salvar, com dinheiro do contribuinte, alguns bancos e empresas que outrora enriqueceram, se locupletaram, concentrando poder e riqueza graças à ausência do Estado.

Desconstruir paradigmas como o da privatização, explicar como funcionaram e como estão presentes no cotidiano de nossa economia pode ser uma oportunidade histórica para que a comunicação pública se estabeleça como um diferencial, quer seja discutindo os níveis de emprego quer seja discutindo a matriz de transporte de Santa Teresa, a partir dos interesses da cidadania e não a partir dos interesses do poder político e econômico.

Por que os bondes de Santa Teresa são notícia para a ABr? O objetivo dessa pauta seria o de mostrar quais são as outras soluções possíveis e que talvez estejam sendo ignoradas pelo governo ou apenas informar que o governo vai privatizar o serviço? Apesar de ser a função da Agência fornecer informações para promover o debate sobre o problema mostrando os diversos pontos de vista sobre a questão, em algumas frases a reportagem dá a entender que a decisão já está tomada: “Com o preço subsidiado e inúmeros problemas, o governo não vislumbra outra solução”.

No entanto, na leitura das duas matérias aparecem informações que revelam soluções alternativas à que está sendo tomada pelo Poder Público, mas as matérias não explicam por que não foram aplicadas. Por exemplo: o que aconteceu com os R$ 22 milhões destinados pelo Banco Mundial (Bird) para a restauração de 14 composições há dois anos? Por que o banco colocaria esse dinheiro na mão do governo se não fosse para recuperar um sistema de transportes tombado pelo patrimônio histórico? Quais são os argumentos da sociedade civil que obteve uma liminar obrigando a devolução dos bondes em 2008? Por que o estado não cumpriu a liminar? Em que se baseou a decisão da Justiça? Qual o impacto sociocultural da privatização desse cartão postal[bondinhos] que já transportaram a intelectualidade e boa parte da elite carioca nas décadas de 1930 e 1940? Qual a posição do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre a privatização? Quantos profissionais trabalham no sistema de bondes, que incluiu também a conservação dos trilhos, das garagens, oficinas e da rede aérea de eletricidade.? Quanto vale o conhecimento desses profissionais sobre uma tecnologia secular que está em extinção? E a relação afetiva com seu trabalho? Será que os custos indiretos e imateriais foram computados pelo governo quando o secretário de Transportes alega que o preço da passagem (R$ 0,60) não é suficiente para cobrir todas as despesas? O valor está defasado de qualquer realidade de transporte? Os usuários do transporte público concordam com a afirmação do secretário de que o modelo de concessão, como o aplicado para outros meios de transportes na cidade, com o objetivo de melhorar o serviço, realmente o melhorou ou é somente um objetivo? Mais importante do que saber o que é notícia e reportar o fato em si, seja ele local ou nacional, talvez seja explicar porque tal fato aconteceu.

Assim, mesmo que os assuntos cobertos pela ABr sejam comuns aos outros veículos de comunicação, o público espera que ela consiga ir além dos fatos mostrando porque eles aconteceram, quais foram as suas origens, o que determinou que eles ocorressem de uma determinada maneira e não de outra, quais são os processos históricos em curso e suas possíveis conseqüências, quem ainda não foi ouvido e precisa ser para que se estabeleça o debate democrático no espaço público de comunicação.

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