Obra de Niemeyer pode desaparecer
Categoria: Clipping
07 de maio de 2010
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José Luiz de Pinho
Internado há 11 dias no Hospital Samaritano, em Botafogo, por causa de uma infecção urinária, o arquiteto Oscar Niemeyer, de 102 anos, deve ter alta nesta quinta-feira e corre o risco de ver ofuscado o primeiro projeto arquitetônico de sua longa carreira: a casa onde morou por 10 anos, na Rua Carvalho Azevedo 96, na Fonte da Saudade, Lagoa, que é tombada pelo município.
Segundo moradores, dois imóveis vizinhos à casa construída por Niemeyer estão prestes a ser demolidos para dar lugar a novos prédios, o que encobriria a visão panorâmica da residência, projetada pelo arquiteto em 1942. A Associação dos Moradores da Fonte da Saudade e Adjacências (Amofonte) protesta contra o que classifica de “crime contra patrimônio” e “desrespeito” a Niemeyer.
– Que falta de memória é essa! Isso fere a legislação de tombamento, que proíbe demolições no entorno. Quando meterem a marreta, vamos chamar a polícia e acampar lá para impedir esse crime – avisa a presidente da associação, Ana Campitelli Simas.
A casa de Niemeyer é tombada pela Secretaria de Patrimônio Cultural, Integração Urbana, Arquitetura e Design do Município e pela Fundação Niemeyer. O triplex também estaria em vias de ser tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan) e pelo Instituto Estadual de Proteção ao Ambiente Cultural (Inepac).
– As duas casas já foram desocupadas. Pelo entra e sai de caminhões, eles já devem estar quebrando alguma coisa. Mas, os moradores da Fonte da Saudade estão em alerta – afirma Ana Simas.
A equipe do JB constatou que cinco operários já fazem a medição topográfica no terreno das casas 60 A e 60 B, que tomam um quarteirão da Rua Carvalho Azevedo. Eles não dizem o nome da construtora, que a Amofonte também desconhece, e não há placas.
O gabarito da prefeitura não permite a construção de prédios acima de 14 metros de altura ou quatro andares na Fonte da Saudade. Moradora do prédio 63, em frente às casas a serem demolidas, Marisa Sussekind repudia a obra.
– Além do desrespeito ao Niemeyer, a Rua Carvalho Azevedo tem mão dupla, é pequena, estreita e não tem saída. Imagina se construírem um prédio aqui? – indaga ela.
Moradores temem sofrer os transtornos dos vizinhos da Rua Baronesa Poconé, onde a construtora CHL comprou uma área para erguer, segundo eles, um prédio de 80 apartamentos.
Vizinho, Ziraldo promete entrar na Justiça
Além da bela vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, a casa projetada por Oscar Niemeyer, na encosta do Parque da Fonte da Saudade, já foi até cenário de filme – Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor, com Fernanda Torres e Thales Pan Chacon, rodado em 1986.
A casa, um triplex, tem o toque pessoal de Niemeyer. Foi construída sobre pilastras, em cimento armado, com telhas portuguesas e venezianas de madeira. No interior, rampas substituem escadas. No primeiro nível, garagem e áreas de serviço. No segundo, cozinha, estúdio, living e varanda. No terceiro, dois quartos, banheiro social e terraço.
O sempre bem humorado cartunista Ziraldo, há dez anos morador do edifício 63, em frente à casa, se sente indignado com a iminência da construção do prédio na frente da relíquia de Oscar Niemeyer:
– Além de ser ilegal, é uma falta de bom senso construir um prédio para cobrir a vista de uma casa do Niemeyer. Vou mover uma ação na Justiça contra quem pretende construir esse prédio aqui.
Morador há 11 anos do prédio 71, vizinho ao de Ziraldo, o jornalista Dinoel Santana também se mostra revoltado.
– Acabaram com o sossego na Baronesa Poconé. Agora, querem acabar com o nosso – protestou Dinoel, primo do técnico Joel Santana.
O historiador Mílton Teixeira não se conforma com a ameaça de obstrução da visão da casa de Niemeyer.
– Se o Brasil fosse um país sério como os Estados Unidos, a França e a Inglaterra, essa obra seria preservada – critica ele.
Morador atual teme que obra abale a estrutura do imóvel Morador da casa projetada por Oscar Niemeyer desde que nasceu, há 30 anos, o cinegrafista e fotógrafo Renato Sette Câmara teme que as estruturas do imóvel fiquem comprometidas com o início das obras no terreno ao lado. – Não digo nem por mim, pessoalmente. Mas o problema é que a casa foi construída em cima de pilastras. Se vier um bate-estaca para cá, com certeza, vai comprometer as fundações dela – preocupa-se Renato, que herdou a casa do avô, o ex-governador do Estado da Guanabara, José Sette Câmara, também ex-editor-chefe do JB na década de 50. – Meu avô comprou a casa do Niemeyer. Nasci e cresci aqui e só tenho boas recordações deste lugar maravilhoso. O fotógrafo e cinegrafista só não entende como um patrimônio tombado pode ter ameaçada sua imponência. – Além de ter sido cenário de filme, ao longo dos anos, esta casa já foi visitada por embaixadores, turistas e até alunos de arquitetura, pela importância de ter sido projetada por Niemeyer – lembra Renato Sette Câmara. – É um absurdo tapar a visão desse monumento. Sem contar que essa rua já não comporta mais tantos carros e gente. Se não é para ser preservado, para quê, então, existe a lei de tombamento na cidade?
Jornal do Brasil – 05/05/2010










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