O evento Artes de Portas Abertas chegou ao fim neste domingo (5/10) com um saldo que nenhum valor econômico obtido pode superar: o desrespeito ao morador, refém do caos que tomou conta do bairro. A cada nova edição, sua realização se afasta do conceito que norteou sua criação em 1996 – uma mostra coletiva de artistas residentes no bairro, que ABREM seus ateliês à visitação de visitantes e demais moradores para contato com sua arte.
Hoje, o Artes de Portas Abertas está de costas para o morador de Santa Teresa. O lucro, baseado em um turismo de massa que violenta o bairro e seus moradores e moradoras – como a maioria dos eventos promovidos em Santa Teresa, é o grande objetivo a ser atingido. Essa visão puramente mercantilista, fruto da política desenvolvida e incentivada pela prefeitura do Rio na ocupação dos espaços públicos da cidade, trafega embutida em pseudas manifestações culturais.
O fato é que a palavra “cultura” hoje fornece uma espécie de salvo-conduto para se fazer qualquer coisa – mesmo ao arrepio da lei, às custas do bem-estar coletivo e como prerrogativa para atacar quem se opõe, geralmente tachados de “anti-cultura”, “contra o bairro”, “amargos”, “desencantados” ou “elitistas”.
O que deveria ser uma atividade de encontro da cidade com os movimentos artísticos que sempre povoaram o bairro, se transformou em um símbolo potente da desordem urbana crônica do bairro. A cada edição, o festival expõe um contraste gritante: a riqueza cultural de alguns ateliês versus a absoluta falência da infraestrutura e da gestão pública nas ruas.

As ruas do bairro, com sua topografia peculiar e calçadas, já estreitas e irregulares, tornaram-se intransitáveis durante a realização do Arte de Portas Abertas. O Código de Posturas do Município, mesmo tendo alterações de 1978 até 2015, ano da aprovação da última alteração, sempre se preocupou com o livre trânsito de pedestres, que flagrantemente tem sido ignorado por ocupação Ilegal de mesas, barracas, food trucks e pontos de venda improvisados que tomam conta do que deveria ser o espaço do pedestre; do risco e exclusão a idosos, cadeirantes, famílias com crianças pequenas e pessoas com mobilidade reduzida que são forçados a disputar espaço com veículos na rua, ou simplesmente ficam impedidos de sair de casa.

Após a denúncia, a Guarda Municipal e integrantes da Gerência Executiva Local (antiga RE) deram as caras no evento, retirando barracas. Entretanto, uma ação para inglês ver. A primeira, na sexta-feira pela manhã, e a segunda, sábado, já altas horas da noite, o que na prática de nada adiantou, pois durante o evento as calçadas estavam novamente ocupadas. E nesse período nada aconteceu.
DITADURA DO RUÍDO: O SOSSEGO NEGADO
O direito ao descanso e ao sossego é o que mais sofre. O festival se expande para feiras de música e shows de rua, levando os níveis de ruído a patamares insustentáveis.
A poluição sonora descontrolada, abordada com certa ênfase no código de postura de 2008, que estabelece limites para ruídos em áreas residenciais, é letra morta. Estabelecimentos enchem as ruas com caixas de som que operam em volumes abusivos até a madrugada, transformando o bairro em uma casa de shows a céu aberto ignorando a lei e a qualidade de vida dos residentes, dando ao bairro um espírito muito mais próximo de uma “rave” do que um evento artístico.
A CRISE DE PLANEJAMENTO: EVENTO SEM SUPORTE
A popularidade do Artes de Portas Abertas, com expectativa de receber dezenas de milhares de visitantes, exige uma contrapartida logística que simplesmente não existe. A mobilidade colapsa com o aumento drástico no fluxo de veículos (carros de aplicativo, vans e demais serviços de transporte) em ruas já estreitas que causam engarrafamentos caóticos.
Os problemas sanitários são aparentes com a ausência de fiscalização eficaz e o despreparo para um evento de grande porte resultam em lixo acumulado pelas ladeiras históricas, sobrecarregando os serviços de limpeza e degradando a beleza do bairro.
UMA TENDÊNCIA DESALENTADORA
O Arte de Portas Abertas corre o risco de deixar de ser um festival de resistência cultural, sua proposta inicial, para se consolidar como um símbolo da desordem e do abandono que os moradores de Santa Teresa são forçados a engolir.
Vídeos – Rua Paschoal Carlos Magno interditada, sem passagem para ônibus e bonde. Grupo deixa Praça Odylo, após tocar.








