A relação entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e as empresas de ônibus, historicamente marcada por crises, parece manter-se fiel a um modelo de submissão do poder público aos interesses privados. Ano após ano, as soluções apresentadas são paliativas — meros “puxadinhos” que não alteram a estrutura do sistema, pois, para isso, seria necessário colocar o passageiro como o verdadeiro protagonista da mobilidade urbana.
A reunião convocada pela Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) na última quarta-feira (28/01) é um exemplo dessa desconexão. O encontro visava ouvir usuários de Santa Teresa, Rio Comprido e Vila Isabel, mas apenas após as mudanças já terem sido implementadas.
A Voz de Santa Teresa
Presente à reunião, o presidente da AMAST, Orlando Lemos, destacou que os passageiros das linhas 014 e 013 deveriam ter sido consultados antes de qualquer alteração. O bairro sofreu com a mudança de itinerário do 014 e a supressão do 013, decisões tomadas sem diálogo com quem depende do serviço diariamente.
A Justificativa da Prefeitura
O Subsecretário Municipal de Transportes, Guilherme Braga, atribuiu as modificações à crise nas empresas Real Auto Ônibus e Transportes Vila Isabel, que entraram em processo de falência. Segundo a SMTR, essas falhas retiraram 250 veículos das ruas, e o consórcio Intersul — que já opera em colapso — não teria capacidade imediata de reposição.
“A grave crise da Real e da Vila Isabel está forçando ajustes em outras linhas para tentar minimizar os impactos”, afirmou o subsecretário, alegando que áreas de maior concentração estão sendo priorizadas.
Porta Arrombada, Tranca Tardia
A crítica da AMAST é clara: a prefeitura já tinha pleno conhecimento dessa crise. Por que não interveio antes? Por que não buscou alternativas que incluíssem a opinião dos usuários? A agilidade demonstrada na intervenção do BRT — que possui maior visibilidade política — contrasta com a inércia em relação às linhas convencionais que servem os bairros.
O Impacto no Cotidiano: O Calvário do Passageiro
As mudanças no 014 não atendem Santa Teresa. O serviço prestado pela Transurb já era alvo de queixas constantes: frota reduzida, horários irregulares, alta velocidade em ruas estreitas e veículos em condições precárias. Agora, a situação agravou-se.
Com o novo itinerário percorrendo todo o Centro, o tempo de espera aumentou drasticamente, especialmente porque a Transurb mantém apenas dois veículos na linha. O impacto é prático e cruel:
- Quem pegava o ônibus na Rua Evaristo da Veiga agora precisa caminhar até a Praça Tiradentes ou ir à Rua Almirante Barroso.
- Neste último caso, o passageiro é forçado a pegar o ônibus no sentido Centro/Central para só então fazer o trajeto de volta e subir o bairro.
É uma “maratona” inaceitável para trabalhadores cansados e, sobretudo, para idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
Próximos Passos
Diante da rejeição enfática dos moradores, o subsecretário Guilherme Braga solicitou um prazo para reavaliação técnica. Uma nova reunião foi agendada para o dia 4 de fevereiro, onde a comunidade espera que a SMTR apresente soluções reais, e não apenas mais justificativas para o descaso.








