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Bonde

Bondinhos de Santa Teresa: volta aos Prazeres? Desmanche continua à revelia de vitória dos moradores na Justiça

Por Débora Lerrer e colaboração de Álvaro Braga

Desde que foi fundada no início da década de 80, a AMAST (Associação dos Amigos de Santa Teresa) herdou como uma de suas principais bandeiras a luta por estes centenários veículos, hoje símbolos do bairro e seu maior programa turístico, dando continuidade a uma mobilização pela manutenção dos bondes que se iniciou na década de 60, reunindo moradores e funcionários de várias gerações. É seu charme que o faz ser um cenário cada vez mais requisitado para produções audiovisuais, eventos musicais e carnavalescos, como o Bonde da Paz, promovido pelo governo estadual no pré-Carnaval como o “primeiro evento de pacificação da cidade”.

O estranho é que na medida em que o bonde vai aparecendo cada vez mais em novelas, filmes, propagandas, é palco de eventos musicais da cidade, seu patrimônio continua sendo desmantelado, apesar de todas as mobilizações e iniciativas da população de Santa Teresa contra isso. Pois, para a população de Santa Teresa, o bondinho é muito mais do que a moldura fotogênica de eventos midiáticos. Ao contrário deveria ser visto por seus gestores como “o” meio de transporte de Santa Teresa pois, além de ser o que melhor se enquadra em nossa paisagem topográfica-cultural, é ecológico (elétrico) e  é uma via expressa até o centro de nossa metrópole (sem cruzamentos, sem semáforos). Nossa visão é de que o bonde tem que tornar a ser “o” meio de transporte por excelência do bairro.

Todos os anos, em setembro, comemorando o aniversário dos bondinhos, ocorrem manifestações no bairro. Há anos há audiências públicas, tanto na Assembléia Legislativa, no Crea-RJ, na Câmara de Vereadores, mas o desmanche continua. A última agressão do governo estadual contra o patrimônio cultural dos bondinhos de Santa Teresa foi a venda irregular dos truques e das máquinas de fazer peças dos veículos para o ferro-velho Balprensa, na Pavuna.

Havia pelo menos seis veículos históricos parados na garagem aguardando essa recuperação, para os quais os truques e a máquina de fazer peças poderiam ser essenciais. Esses eram os únicos dos 14 exemplares de bondes tombado pelo patrimônio histórico do Estado que conseguiram sobreviver à sanha da decisão tomada pela administrações Garotinha-Cabral de travesti-los em VLTs (Veículo Leve sobre Trilhos) ao custo de R$ 1 milhão  cada, cerca de cinco vezes mais caro do que uma reforma destes veículos em seus moldes tradicionais. Ou seja, o dinheiro gasto para fazer um VLT, dava para recuperar pelo menos três dos bondinhos parados na garagem.

Hoje, Santa Teresa só tem dois/três VLTs circulando e raramente se vê algum tradicional com seu roncar característico pois, somente dois tradicionais estão em condições de rodagem (o 10 e o 12). Sim, porque além de ter custado caríssimo – o preço de um tanque de guerra usado – o bonde “moderno” (VLT) produz um ruído estridente de 105 decibéis, de tanque, que só pode ser diminuído usando com uma cera, cujo pote pequeno custa 500 reais. O governo tenta tornar verdade a mentira de que não havia como recuperá-los por que não havia peças no mercado. Na verdade, falta desde sempre apenas a verba para manutenção. Mas as peças que os funcionários da oficina não conseguiam fazer ainda são facilmente encontradas no mercado, como explicou um dos fornecedores para diretores da AMAST: “Só não fornecemos mais e mais barato porque nunca há recursos para a manutenção”.

Ao contrário da lógica e do esperado de quem possui espírito democrático, a SECTRANS  não aceita conversar com a AMAST (desde setembro aguardamos audiência), nem aprende com seus erros. Nos choca termos recebido de trabalhadores do bonde a informação (a “boca pequena”) de que com menos de 300 mil Reais a Central Logística poderia reformar dois bondes tradicionais parados e que se encontram em melhores condições (o 11 e o 9).

O governo estadual  acaba de tornar a ser condenado pois perdeu o recurso que havia apresentado contra a Ação Civil Pública ajuizada pela 3a Promotoria de Justiça do Meio Ambiente e Patrimônio do Rio de Janeiro/AMAST,  foram derrotados agora já em segunda instância.  Os desembargadores do Tribunal de Justiça,  condenaram o Governo do Estado do Rio de Janeiro/Central Logística a pagar indenização por desrespeitar o seu dever como prestador de serviço de passageiros , por descumprimento do seu próprio Plano Estadual de Transportes (PET). A sentença determina a restauração de todo o sistema: bondes,  via permanente (trilhos), também exige a recuperação da oficina da rua Carlos Brant, da rede aérea e do gradil dos Arcos da Lapa, em 120 dias, sobe pena de multa diária de R$ 50 mil. A decisão judicial também contempla a reforma das estações Carioca e Curvelo.

De resto, só não corremos mais risco de que outros bondinhos sejam travestidos em ineficientes VLTs , porque o contrato firmado entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro através da Sec Estadual de Transportes/Central Logística com a Ttrans (os fabricantes dos malfadados VLTs), foi declarado ilegal peloTribunal de Contas do Estado.

Façamos votos de que a SECTRANS reconheça afinal a importância do tombamento dos bondes e passe a respeitá-lo. Urge também que eles cessem de amesquinhar o sistema de transporte de bondes de Santa Teresa e que parem de associar nossos bondinho à um  “aparelho turístico” (para nós moradores, como sempre foi, o turista é bem vindo ao nosso lado, usufruindo da mesma qualidade de serviço que seja oferecido aos cidadãos-passageiros). Ao contrário da lamentável visão atual, os responsáveis legais pelo bondinho de Santa Teresa deveriam passar a compartilhar a visão cidadã de que o mesmo é “um serviço essencial” para sua  população, como definiu o ex-Secretário de Transportes do Estado,  o engenheiro e professor Raul de Bonis, em uma audiência convocada pelo CREA-RJ, em  2009, para discutir a reforma cara e tecnologicamente questionável dos bondes de Santa Teresa, bem como os planos de privatização dos bondinhos, anunciados pelo Governo Cabral no início de seu primeiro mandato.

Infelizmente, esta audiência, como tantas outras não deu em nada porque os bondes criminosamente modernizados foram colocados em circulação, apesar dos acidentes que haviam ocorrido com seus primeiros protótipos. E então veio a tragédia anunciada: em agosto, alguns meses depois deste debate no Crea-RJ, um acidente envolvendo um desses “bondes frankensteins” – como foram apelidados pela população do bairro – vitimou Andrea de Jesus Resende,  uma jovem professora de 28 anos. Posteriormente a Comissão de Prevenção de Acidentes do CREA condenou após exames o sistema de freios adotado pelos frankensteins-VLTs.

Na época, em meio à comoção, o governador Cabral anunciou que os bondinhos iriam para a Prefeitura. Nada ocorreu. Apesar de terem seus freios reprovados pelo levantamento feito pelo pelo Crea-RJ, os “bondes Frankensteins”, tirados de circulação após o acidente, voltaram circular no ano passado. Vieram as chuvas de abril de 2010, que danificou alguns postes e a rede aérea, desde então, eles não iam mais até o Morro dos Prazeres. Triste constatar que foi necessário o anúncio da visita do governador aos Prazeres ( inauguração das duas UPPs) para que o bondinho tornasse a voltar ao Dois Irmãos. Demoraram quase um ano para restabelecer o serviço até os Dois Irmãos!  A demora revela a visão perversa dos responsáveis pelo Bonde,  não havia pressa , posto que o transporte de turistas até o Guimarães não havia sido afetado , muito pelo contrário, havia sido privilegiado pela linha Carioca-Guimarães… Já os que moram lá pelo Dois Irmãos, Paula Mattos que usufruam dos serviços  da “excelente” Transurb!

A AMAST agora aguarda a publicação da Decisão da 20º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que negou os recursos do Estado e da Central Logística (empresa que administra os bondes)  para tentar escapar de seu compromisso com a recuperação do sistema de bondes . Dois desembargadores negaram o recurso. O único que acatou os, digamos, argumentos do Estado ainda não enviou suas alegações por escrito, para que a sentença seja publicada no Diário Oficial e venha a ter efeito concreto obrigando o governo estadual, quem sabe enfim, a cumprir com a vontade da Justiça e da população de Santa Teresa.